O real motivo da literatura antropomórfica no Brasil não ter decolado (ou quase isso)


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Não é por sermos um país culturalmente fechado à fantasia ou avessos à ficção científica em geral, é por prezarmos muito mais pelo que é humano, inerente à humanidade, até na literatura fantástica no Brasil não há espaço para o que é inumano, o antropomorfismo só aparece esporádica e aleatoriamente em nossas letras (como nos contos "Teleco, O Coelhinho", "Os Dragões", "O Ex-Mágico da Taberna Minhota" e "Alfredo", de Murilo Rubião, os romances envolvendo Birman Flint de Sergio P. Rossoni, os livros de Acácio Pereira de Jesus — principalmente a trilogia dos vagabundos —, demais livros do Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato, contos, novelas e romances de M. M. Schweitzer e afins), nunca de forma significativamente marcante e/ou memorável. Não temos um Redwall, um Os Guerreiros de Ga'hoole (A Lenda dos Guardiões), um Kyell Gold, nem nada do tipo (ainda).

É por sermos um país muito humano. Muito focado no que é humano (literariamente falando), não damos atenção ou exercitamos uma literatura do ponto de vista inumano (isso inclui animais — antropomórficos ou não —, alienígenas, monstros e quaisquer criaturas não humanas).

Eu sou escritor de antropomorfismo, mas encontro-me indeciso e desanimado sobre o que escrever.

Por não ter muitas referências em língua portuguesa (brasileira) dos exemplos citados acima, estou indeciso, mas me sinto totalmente livre para experimentar, experimentar muito... Mas algo me impede de fazer meus experimentos. Diria o perfeccionismo e o medo de plagiar, mas é aquilo que Picasso disse: Bons artistas copiam, grandes artistas roubam; então o que me prende, o que me impede de escrever livremente? Não sei. Algo ressoa dentro de mim, uma necessidade desconhecida e não atendida. Não sei o que é... Mas ficar parado, esperando alguma inspiração chegar não adianta de nada.

Eu não termino o que começo, isso vai acabar. Irei até o final com o que eu começar.

Bons escritores reescrevem, editam; grandes escritores terminam.

E, além do mais, temas humanos sempre do ponto de vista humano já enjoou bastante. Eu (e talvez outras pessoas que pensam e sentem como eu) acho o ser humano e tudo inerente a ele tedioso. A raça humana tem o ego inflado demais, nunca levam em conta que num futuro longínquo não seremos mais a espécie dominante do planeta, não só isso como também, se houverem estudiosos e arqueólogos (de outra espécie, óbvio, ou de fora do planeta) estudarão a nossa raça não a vendo como grandiosa, mas como um desastre (que é o que somos); tudo o que nós vivemos não passa de um experimento, nosso planeta é um grande laboratório, e somos testados o tempo todo — não, isso não é papo de católico ou evangélico querendo converter você e vender bíblias de tamanho reduzida — e... Sabe os resultados? Isso. Desastres. Não somos especiais. Qualquer outra espécie medianamente mais evoluída e avançada que a nossa pode nos dominar, não fomos dominados até agora porque não quiseram, mas fato é que nos assistem, assistem cada errinho e atrocidades que cometemos, esperando o momento certo para nos destituir do que não é nosso por direito (isto é, nosso mundo, nós não dominamos nada, achamos que dominamos, e os fenômenos e desastres naturais estão aí para nos contrariar, é impossível prever o tempo, esse mundo não é nosso, apenas pisamos nele).

Estava escrevendo uma história em que os animais evoluíram assim como nós, ao passo que a 96% da nossa espécie foi ceifada por uma doença, os que restaram foram escravizados, alguns até domesticados e tratados como pets pelos animais, ou foram parar em zoológicos-museus. Os animais nos trataram como outrora os tratamos.

Não sei quando terminarei essa obra nem se a continuarei. Tudo é muito remoto.

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